sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ainda sobre governantes "duas caras"

Leio uma entrevista do presidente Lula ao jornal Folha de São Paulo, que me surpreende positiva e negativamente. Explico. Muitas respostas parecem francas e diretas.

Como esta, por exemplo:

FOLHA - A crítica básica do Serra é a seguinte: o Banco Central jogou fora na crise um bilhete premiado, que seria a oportunidade de baixar mais os juros sem custo. Agora, a crise acabou, a taxa está alta, pode ter que aumentar e jogou fora o bilhete premiado?
LULA - Vivi os dois lados. Quando se é oposição, você acha, pensa, acredita. Quando é governo, faz ou não faz. Toma decisão. O Serra participou de um governo oito anos. Tiveram condições de tomar decisões e não tomaram. Obviamente, qualquer um que for presidente, tem o direito de tomar a posição que bem entender...

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Ele está certo. O chefe do executivo ouve (ou pelo menos deveria), pondera e decide. Se acertar, maravilha; se errar, aguenta.

Ou estas:

FOLHA - E sua ordem para normalizar o pagamento da restituição do IR?
LULA - Não havia nada de anormal. No Brasil, já tivemos momentos em que a devolução atrasou. No nosso governo, tivemos momentos em que adiantou.

FOLHA - O ministro da Fazenda disse que estava atrasado, e o sr. deu a ordem para acelerar.
LULA - Lógico, porque tem que pagar. Nós precisamos de consumo. Precisamos que o povo tenha dinheiro para comprar. Falei com o Guido [Mantega]: Guido, nós precisamos que o povo tenha dinheiro para comprar. O povo tem de ter o dinheiro em dezembro.

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Pelo menos não é nenhuma esmola ou bolsa qualquer coisa, é o dinheiro voltando pro bolso de onde não precisaria ter saído, se a retenção na fonte não fosse tão distorcida.

Por outro lado:

FOLHA - O sr. não teme a repercussão negativa entre os judeus do encontro com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
LULA - Muito pelo contrário. Não estou preocupado com judeus nem com árabes. Estou preocupado com a relação do estado brasileiro com o estado iraniano. Temos uma relação comercial, queremos ter uma relação política, e eu disse ao presidente Barack Obama (EUA), ao presidente Nicolas Sarkozy (França) e à primeira-ministra Angela Merkel (Alemanha) que a gente a não vai trazer o Irã para boas causas se a gente ficar encurralando ele na parede. É preciso criar espaços para conversar.

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Deplorável. Para alguém que se pretende um estadista, a manifestação é, no mínimo, absurda. A relação com o estado iraniano não exclui a condenação das barbaridades ditas por Ahmadinejad. Mais ainda, estes "afagos" significam um acinte aos judeus nascidos e/ou residentes no Brasil, dos quais Lula, tenham ou não votado nele, é presidente.

Quando parecia que não podia piorar:

FOLHA - A imprensa não tem de ser fiscal do poder?
LULA - Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios ao governo, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais.

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Poderia citar Millôr: "Imprensa é oposição. O resto é relações públicas." Prefiro as sábias palavras de minha vó: Quem não deve, não teme.

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